Leitura Silenciosa

Julho 8, 2007

Macartismo racial

Arquivado em: Cultura, Pilantragens Petistas — riomemo @ 1:06 pm

ISABEL LUSTOSA (O Globo, 6/07/2007)

Saiu a sentença da Comissão da Universidade de Brasília contra um de seus professores, o doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, Paulo Roberto da Costa Kramer. Ele também está sendo processado criminalmente.

O professor foi condenado a trinta dias de suspensão por ter ofendido alguns alunos com o epíteto de “crioulada”; a um aluno chamando-o de “negro racista” e ao movimento que este vem liderando contra ele e outros professores de “Ku Klux Klan negra”.

Creio que a situação deve ter começado com algum comentário infeliz envolvendo a expressão crioulada dita pelo professor em sala de aula. No desenrolar dos subseqüentes enfrentamentos, vieram os outros epítetos.

Estes últimos já foram o resultado do estado emocional do professor e de sua incredulidade diante do pesadelo que estava vivendo.

Paulo Kramer não percebeu que o episódio que lhe parecera inicialmente sem importância se tornara uma boa bandeira para ser agitada pelos chamados negros profissionais.

Aqueles que, caracterizados com trajes supostamente africanos e que nunca foram usados pelas populações negras brasileiras, se dedicam em tempo integral à militância. Paulo Kramer estava apenas nos primeiros degraus do calvário e do processo para o qual fora escolhido como o alvo ideal. Pois nada melhor para essa caça às bruxas, para esse neomacartismo racial que estamos vivendo hoje no Brasil do que um intelectual branco, de origem judaica, bem-sucedido e com idéias políticas liberais.

O processo faz lembrar aquele filme “Uliana”, de David Mamet, em que uma aluna acusa o professor de assédio sexual. O professor trata a aluna com familiaridade, até mesmo com afeto, explicando por que não pode mudar a nota.

Essa atitude amável é usada pela jovem para acusá-lo de assédio sexual junto a um comitê acadêmico.

Perplexo com o absurdo da acusação, ele a interpela e, ao perceber que se trata de uma tentativa de chantagem, reage com indignação, pegando a garota pelo braço para expulsá-la de seu gabinete. O movimento brusco faz com que se rasgue a blusa da moça, que aproveita para também acusar o professor de tentativa de estupro. Enfim, o filmepesadelo continua até à ruína total da carreira do mesmo professor.

Paulo Kramer e o professor de “Uliana” se formaram em um tempo em que o clima nas universidades era absolutamente informal, e professores e alunos se relacionavam em pé de igualdade. Inclusive estabelecendo relações de amizade com as brincadeiras, brigas e ofensas que as relações de amizade às vezes implicam.

O Kramer pensou que, na UNB, ainda podia viver da maneira em que vivíamos quando fomos colegas e os melhores amigos no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, naqueles anos felizes do final da década de 1970. Cursamos a faculdade em um ambiente onde preponderavam negros e mestiços, e o inimigo comum ainda era a ditadura militar.

Dentre todos os alunos o que mais se destacava era o Paulo Kramer, não só por ser um intelectual brilhante e por seu tremendo talento para a caricatura, mas também por ser o cara mais engraçado do mundo. Ninguém como ele para fazer piadas sobre professores e colegas, imitando-os.

Aliás, fazia a melhor imitação de Luis Carlos Prestes que já vi.

Um dos melhores amigos do Kramer era um colega que chamávamos Paulinho, de Vila Kennedy. Paulinho, uma liderança daquela região pobre do Rio, era negro, muito escuro, um afro-descendente que não deixaria qualquer dúvida nos membros anônimos do comitê secreto da UNB que hoje decide quem é negro e quem não é. O Paulinho morria de rir das bobagens do Kramer que, referindo-se aos estudos teológicos do xará, dizia que ele era Tomista. Num trocadilho de gosto duvidoso com o nome que se dá aos estudiosos do pensamento de São Tomás de Aquino. Não me lembro se, entre as brincadeiras, havia alguma relacionada com à cor do Paulinho.

Certamente havia. As brincadeiras entre colegas de universidade, hoje consideradas politicamente incorretas, eram constantes e, nem por isso, instauravam um clima de terror nos corredores.

Ao contrário, o clima era de ampla confraternização e, a uma brincadeira provocativa, o outro lado reagia com outra de igual teor.

Perto do final do curso participei com alguns colegas da criação do primeiro núcleo do movimento negro do IFCS. O fato que ajudou a impulsionar o nosso pequeno grupo não foi muito diferente do que mobilizou os estudantes da UNB.

Nós também acusamos uma professora de racismo sem levar em conta as circunstâncias atenuantes. Pois, menos do que uma racista, tínhamos, no máximo, uma pessoa intolerante e impaciente com as dificuldades que os mais pobres — não necessariamente os mais escuros — têm para cursar uma faculdade pública. O marido da professora era negro mas, mesmo assim, ela serviu bem ao nosso propósito. Nosso movimento não resultou em um processo legal como o que agora envolve o Kramer, mas, diante do trauma provocado pela situação, a professora decidiu pedir aposentadoria antecipada.

Até hoje me pesa na consciência o fato de ter prejudicado a carreira de alguém com o meu radicalismo. Pois sei que pior do que a sentença da Justiça é o estigma de racista em uma terra onde praticamente não há ou havia racismo e, sim, preconceito racial, que é coisa bem diversa e muito comum entre nós.

O preconceito deve ser combatido em todas as camadas sociais, e o Brasil tem leis para isto. Mas um processo contra um professor com base em razões tão discutíveis quanto essas que resultaram na sentença do Kramer só serve para instaurar um clima de medo, repressão e desconfiança na Universidade.

É fator de divisão, pois abre uma cunha entre professores e alunos, liquidando a possibilidade de um diálogo franco. E vem aumentar o potencial desagredador da política de cotas, estimulando a divisão entre os alunos por questões raciais. Questões que, cedo ou tarde, evoluirão para um verdadeiro racismo.

ISABEL LUSTOSA é historiadora.

Junho 18, 2007

O “Bolsa Terrorismo”

Arquivado em: Pilantragens Petistas, Política, Sociedade — riomemo @ 1:17 am

Lamarca traiu e assassinou, para implantar
uma ditadura comunista no Brasil. Mas seu
legado de infâmia virou herança financeira

Arquivo AE
Lamarca, depois de desertar do Exército: ele matou um tenente a coronhadas

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Exclusivo on-line
Especial: Memórias do Regime Militar

Em 1969, o capitão Carlos Lamarca traiu seus companheiros de farda, roubou armas e munição do quartel onde servia, desertou do Exército e, a soldo de uma potência estrangeira, matou inocentes a sangue-frio com o objetivo de implantar no Brasil uma ditadura comunista. Foi morto em combate por militares que cumpriam o dever de detê-lo. Quase quarenta anos depois, o terrorista acaba de ser transubstanciado em mártir nacional pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, formada para examinar os casos de cidadãos torturados ou mortos pelo regime militar quando se achavam sob a custódia do estado brasileiro. Lamarca foi promovido postumamente a coronel e premiado com os rendimentos de general-de-brigada. Com isso, seus familiares receberão a pensão correspondente: 12.152 reais por mês. Além disso, a viúva e seus dois filhos embolsarão cada um indenização de 100.000 reais.

Há duas afrontas nesse fato. A primeira delas é ao Exército, uma instituição que tem na disciplina hierárquica e na lealdade dois de seus pilares. Como pode um desertor, assassino de um tenente, Alberto Mendes Júnior – morto a coronhadas por Lamarca –, conseguir tal benefício? “É lamentável! Espero que esse processo não vá até o final. Os generais do alto-comando estão indignados”, disse o general-de-exército Luiz Cesário da Silveira Filho, comandante militar do Leste. Também é um espanto Lamarca ter pulado patentes no que diz respeito ao soldo, indo de capitão a general-de-brigada. Em geral, a família de um militar morto na ativa, não importa por que motivo, passa a receber a pensão correspondente a um posto acima. Lamarca não morreu na ativa – ele abandonou o Exército. O privilégio concedido pela Comissão de Anistia significa premiar a deserção e a traição.

A segunda afronta é à lógica. Caberia à Comissão de Anistia indenizar quem foi morto e torturado sob a custódia do estado. O princípio, aqui, é que os regimes políticos passam, mas o estado brasileiro sempre será responsável pelos malfeitos cometidos em suas dependências. Lamarca, porém, não estava sob a guarda estatal quando foi morto. Encontrava-se em situação de combate, por sua própria conta e risco. A indenização dada a seus familiares, portanto, é incongruente. Equivale à instituição de um programa “Bolsa Terrorismo”. O caso de Lamarca junta-se a outros absurdos cometidos pelas comissões de anistia, cujos integrantes parecem ser movidos pela ideologia de esquerda, e não pelas razões do direito, como deveria ser. Recentemente, foi conferida a Lucas Pamplona Amorim uma indenização de 20.000 reais. Em 1975, sua mãe estava grávida quando foi levada ao DOI-Codi e obrigada a escutar os gritos de seu marido sendo torturado. Lucas ganhou o benefício porque “sofreu conseqüências neuropsíquicas do tipo estresse, que a ele se transmitiram pela circulação materno-fetal”.

 

Junho 7, 2007

“Tonterías” – Miriam Leitão, O Globo, 07/06/2007

Arquivado em: Uncategorized — riomemo @ 12:14 pm

A declaração do assessor internacional do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, de que não falta liberdade de imprensa na Venezuela prejudica a verdade, o governo e ele mesmo: a verdade, porque os fatos são eloqüentes; o governo, porque enfraquece o Senado no conflito com Hugo Chávez; e ele mesmo, porque exibe a profundidade de suas convicções democráticas.

Uma rede de televisão de 53 anos foi fechada, depois de o governo venezuelano ter feito todo tipo de pressão e oferta ilegal de alinhamento rechaçadas pelo seu proprietário.

Agora o governo ameaça a Globovision com a expressão totalitária de que ela é “inimiga do Estado”.

Uma das reportagens que quis fazer, quando fui lá no meio da greve geral, foi sobre a relação entre Chávez e a imprensa. Visitei duas TVs: a estatal Venezolana de Televisión (VTV) e a Globovision.

Na primeira, respirava-se o ar de repartição pública, a programação era toda voltada para projetos, idéias e infindáveis discursos do presidente Chávez. Nada vi lá que me lembrasse, de longe, o jornalismo. Havia uma manifestação na porta da TV a que eles tinham decidido não fazer menção no noticiário. O diretor de jornalismo gastou todo o tempo da entrevista numa longa louvação ao grande chefe Hugo Chávez.

Já na Globovision, vi cenas impressionantes nos arquivos.

Uma delas, foi a de um atentado a bomba praticado pelos círculos bolivarianos contra a emissora. Outras mostravam jornalistas sendo constrangidos em público por Hugo Chávez. No meio de uma reunião com militantes, ele apontava os jornalistas, dizia os nomes e fazia ameaças veladas. Vi discursos dele, aqueles que faz todos os domingos, em que diz os nomes e avisa que todos ali sabem seus endereços. Por fim, vi várias cenas de militantes dos círculos bolivarianos, grupos civis armados e organizados pelo governo, atacando fisicamente jornalistas nas manifestações.

Conversei com jornalistas de jornais para entender tamanho ódio. Eles disseram que o começo do conflito foi a requisição extemporânea, e quase diária, de rede nacional em horário nobre para expor seus proselitismos, misturando o culto a si mesmo com o interesse nacional. Isso desorganizava as grades de programação, punha em colapso os horários dos comerciais e prejudicava financeiramente as empresas. Foi o primeiro tiro; dado por Chávez. Daí em diante, começaram pressões explícitas contra os canais que não o bajulavam. Jornais impressos também foram vítimas de atentados a bomba e seus repórteres foram intimidados.

Na entrevista que fiz com Chávez, fui chamada de “louca” após ter feito uma pergunta que lhe desagradou.

Ele é do tipo: jornalismo bom é o chapa-branca.

O que vi em 2003, o dono da RCTV, Marcel Granier, contou à “Veja”: “O primeiro passo foi a intimidação, a linguagem do ódio. O presidente passou a usar expressões agressivas para atacar jornalistas, editores, humoristas e até caricaturistas. Isso incitou ataques físicos contra eles. Muitos apanharam dos militantes chavistas. Já vão para mais de 800 jornalistas agredidos. Alguns foram assassinados.

A etapa seguinte foi a pressão econômica, por meio de verbas de propaganda.

O último ato foi o que fizeram conosco, a tomada do sinal de transmissão. A mensagem é clara: quem não se portar como Chávez quer perderá a freqüência.” Ouvi de diplomatas brasileiros não apenas palavras de apoio à maneira como Chávez estava lidando com a “imprensa de oposição”, como a informação de que a TV de Gustavo Cisneros, a Venevision, continuaria funcionando porque Cisneros havia “se entendido” com o presidente.

É o tipo de pensamento que está refletido nessas declarações de Marco Aurélio Garcia de apoio aos atos arbitrários de Hugo Chávez.

— Até agora não vi qualquer tipo de restrição à liberdade de imprensa — disse Garcia, no meio das ofensas do ditador venezuelano ao Senado brasileiro. Pelo visto, Garcia acha que o Senado não tem razão.

E que Chávez não reclame de intervenção em assuntos internos, pois é isso que faz cotidianamente. Comenta assuntos internos, interfere, toma partido em brigas locais de vários países. Foi capaz de aproveitar um evento no qual foi homenageado no Rio para, da tribuna do Palácio Tiradentes, criticar o jornal O GLOBO, exibindo uma edição.

Um ato que seria sério não fosse patético.

O argumento de Marco Aurélio de que o fechamento da RCTV foi legal mostra que ele não captou o ponto mais grave do que se passa na Venezuela: Chávez usa as instituições, apodera-se delas, dá um ar de legalidade às mais brutais ilegalidades.

Granier contou que, das 6.000 decisões do Tribunal Superior de Justiça, somente seis foram contra o governo, e os juízes que as tomaram foram substituídos. Chávez está seqüestrando uma a uma as instituições democráticas. Isso é tão claro que ou o assessor de Lula tem tido dificuldade de percepção ou apóia esse tipo de prática.

O que está acontecendo na Venezuela é perigoso e nos diz respeito, porque ameaças à liberdade dizem respeito aos democratas em geral. O governo brasileiro, que na greve geral interferiu no conflito interno fornecendo gasolina para furar a greve, agora usa o biombo da não-interferência para, de novo, ser ambíguo. O presidente Lula fez uma fraca declaração em defesa do Senado e seu principal assessor, ao seu lado, deu razão e defende Hugo Chávez. O episódio mostra a profundidade das convicções democráticas de certos assessores presidenciais.

Janeiro 4, 2007

Coluna de Diogo Mainardi sobre Thomaz Bastos (“O deletério”)

Arquivado em: Uncategorized — riomemo @ 10:31 pm

O Homem do Ano

Siga Márcio Thomaz Bastos. Com cautela. Acompanhe o que fez o nosso Homem do Ano em 2006. Passo a passo. De intriga em intriga. De janeiro a dezembro. Ele foi o túnel que o extremismo petista escavou para fugir da cadeia. Ele foi a lima escondida dentro do bolo. (mais…)

Coluna de Diogo Mainardi sobre Thomaz Bastos (“O deletério”)

Arquivado em: Uncategorized — riomemo @ 10:31 pm

O Homem do Ano


Márcio Thomaz Bastos. O Homem do Ano. A gente tinha uma democracia torta. Ficou ainda mais torta. A gente tinha um pé na ilegalidade. Agora se rendeu a ela. A gente tinha um embrutecimento institucional. Piorou.


Siga Márcio Thomaz Bastos. Com cautela. Acompanhe o que fez o nosso Homem do Ano em 2006. Passo a passo. De intriga em intriga. De janeiro a dezembro. Ele foi o túnel que o extremismo petista escavou para fugir da cadeia. Ele foi a lima escondida dentro do bolo.

Em janeiro, Márcio Thomaz Bastos encaminhou a Lula um projeto de lei que impedia a imprensa de divulgar o conteúdo de grampos telefônicos.

Em fevereiro, ele foi acusado de retardar a entrega do laudo técnico que atestava a falsidade da lista de Furnas, envolvendo políticos do PSDB e do PFL.

Em março, quando foi violado o sigilo do caseiro Francenildo Costa, ele montou a estratégia de acobertamento de Antonio Palocci.

Em maio, Márcio Thomaz Bastos apareceu numa lista de hierarcas petistas com contas bancárias em paraísos fiscais, juntamente com Lula, José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci. A lista foi passada a VEJA por Daniel Dantas.

Aqui a retrospectiva de Márcio Thomaz Bastos cruza com a minha. Testemunhei a entrega da lista a VEJA. Segui de perto todos os seus desdobramentos. Eu sempre acreditei que o ministro partiria para o ataque contra Daniel Dantas. Em vez disso, Márcio Thomaz Bastos preferiu reunir-se secretamente com ele, na casa do senador Heráclito Fortes. Perguntei a Heráclito Fortes como foi o encontro. Ele respondeu: “Daniel Dantas estava com medo do governo e o governo estava com medo de Daniel Dantas”. Medo?

Em julho, ele responsabilizou as prefeituras do PSDB e do PFL pela máfia das ambulâncias.

Em agosto, ele prometeu acabar com os ataques do PCC em 72 horas. Depois disso, deu um depoimento a favor de Aloizio Mercadante em seu programa eleitoral.

Em setembro, estourou o caso do dossiê contra José Serra. Desde o primeiro momento, Márcio Thomaz Bastos tratou de proteger a candidatura de Lula. Um delegado da Polícia Federal foi afastado do caso, as fotografias do dinheiro foram censuradas, um advogado ligado a ele foi acionado para defender Freud Godoy.

Em 22 de setembro, Márcio Thomaz Bastos garantiu que a origem do dinheiro para comprar o dossiê “estava praticamente esclarecida”. Em 16 de novembro, quando o caso já estava devidamente abafado, o nosso Homem do Ano disse que “era preciso ver se o fato realmente tinha uma grande gravidade”.

Márcio Thomaz Bastos está se despedindo do governo. A gente vai levar uns trinta anos para se recuperar de sua passagem pelo poder.

Outubro 22, 2006

A coragem de Cobrar Caro (Stephen Kanitz, Veja, 25/10/2006)

Arquivado em: Cultura, Economia, Sociedade — riomemo @ 3:02 pm

“Se você acha que cobrar caro e ficar rico é
politicamente incorreto, doe o adicional ou
passe a trabalhar menos e volte para casa
mais cedo para curtir sua família

Meu médico me recebeu todo envergonhado pelo atraso de duas horas na consulta marcada.

“Doutor, eu não estou irritado pela espera porque o senhor é simplesmente o melhor médico do país, e eu não sou bobo. Prefiro esperar a consultar o segundo ou o décimo melhor especialista da área.” Isso o tranqüilizou. “Eu só acho triste que o melhor médico deste país esteja cobrando o mesmo preço que os outros, tendo de trabalhar o dobro, sem tempo para estudar e ver a família. Eu, como palestrante que sou, cobro dez vezes o preço desta sua consulta, só que nunca chego atrasado.”

Ele concordou e balbuciou a seguinte frase, que me levou a escrever este artigo. “Tenho medo de cobrar mais do que os meus colegas. Eles ficariam com inveja, falariam mal de mim, seria um inferno.”

Montagem sobre foto Rubberball/Atomica Studio


No Brasil, a maioria dos empregados e profissionais no fundo tem medo de pedir um aumento de salário ou de cobrar mais caro. Cobrar mais significa criar um cliente mais exigente, que irá reclamar toda vez que o serviço não corresponder ao preço. Cobrar menos é sempre a saída mais fácil, dá muito menos problemas, menos reclamações, como no meu caso. É preciso ter coragem para cobrar mais e assumir as responsabilidades inerentes. A maioria prefere o comodismo e a mediocridade do “preço tabelado”. Só que, se cobrar o mesmo que os colegas menos competentes, você estará roubando clientes deles, e é isso que cria inveja e maledicência. Você estará fazendo “dumping profissional”, estará sendo injusto com eles e consigo mesmo.

Eu sei que é difícil cobrar mais caro, mas alguém tem de dar o exemplo, mostrar aos outros profissionais o caminho da excelência, implantar novos padrões, como pontualidade, por exemplo. Você será o guru da nova geração, e a inveja que terão de seu novo preço fará com que eles passem a copiá-lo. E, à medida que seus colegas se aprimorarem, sua vantagem competitiva desaparecerá e você terá de reduzir o preço novamente ou então melhorar ainda mais seus serviços.

Somos essa sociedade atrasada porque, entre nós, cobrar caro, ganhar mais do que os outros é malvisto pelos nossos intelectuais, políticos, líderes religiosos e professores de sociologia. O paradigma de sucesso deles é cobrar pouco. Melhor ainda seria não cobrar, oferecendo de graça ensino, saúde, segurança, cultura, aposentadorias, remédios, comida, dinheiro, enfim. De graça, o povo não tem como reclamar dos péssimos serviços, os alunos desses professores não têm como criticar as péssimas aulas. “De cavalo dado não se olham os dentes.” Se alguma coisa a história nos ensina é que o “tudo grátis” traz consigo a queda da qualidade dos serviços públicos, a desvalorização do serviço, o desprezo pelo povo nas filas, a exclusão social, a corrupção e a desmoralização de todos os envolvidos.

O programa Bolsa Escola foi criado no governo do PSDB como uma forma inteligente de incentivar as mães a manter os filhos nas péssimas aulas do ensino público. Quando o estímulo deveria ser aulas interessantes a que nenhum aluno curioso iria faltar. Nós administradores já descobrimos há tempos que refeições grátis para funcionários não são valorizadas, e a qualidade despenca. Por isso, cobramos algo simbólico, 10% a 20% de seu valor. Se o ensino fosse cobrado, em pelo menos 10% do valor, teríamos pais de alunos reclamando do péssimo ensino público e gerando pressão por melhoria e redução de custos. Dizer que nem isso dá para pagar é mentira – 10% não chegariam a 20 reais por mês. Tem muito pai que faria trabalho extra pelo orgulho de saber que foi ele quem custeou a educação dos filhos, e não a caridade estatal. Se temos falta de recursos em educação, por que não cobrar pelo menos 10% do valor? Seria falta de coragem ou simplesmente vergonha?

Precisamos mudar a mentalidade deste país, uma mentalidade que incentiva a mediocridade, e o medo de cobrar pelos serviços, por óbvias razões. Se você acha que cobrar caro e ficar rico é politicamente incorreto, como muitos professores têm ensinado por aí, doe o adicional pelo meu site www.filantropia.org ou então passe a trabalhar menos, volte para casa mais cedo e curta sua família. Mas não faça a opção pela pobreza, não tenha medo de cobrar cada vez mais. Caso contrário, continuaremos pobres e medíocres para sempre.

Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)

Setembro 23, 2006

A derrota dos intelectuais, por Stephen Kanitz (Veja, 27/09/2006)

Arquivado em: Cultura, Política, Sociedade — riomemo @ 5:27 pm

“Corremos o risco de o povo, os políticos,
os governantes não mais acreditarem
na
manutenção
da classe intelectual”

A grande derrotada nestas eleições presidenciais foi a classe dos intelectuais deste país, que nitidamente perdeu espaço e poder. Os intelectuais criticaram Lula com sua política econômica de juros altos, dizendo que estava tudo errado, inclusive companheiros de partido, advertindo que com essa política ele jamais seria reeleito. Lula contrariou a todos. Apostou em manter a inflação baixa, e o resultado nas pesquisas está aí.

Os intelectuais agora terão tempo suficiente para responder à seguinte questão: se os juros altos beneficiam os ricos e prejudicam os pobres, por que a grande maioria dos ricos e a classe média estão preferindo Alckmin e os pobres, Lula?

O próprio PSDB se cansou de sua ala intelectual ao escolher Geraldo Alckmin. Os intelectuais que sobraram no PSDB não conseguiram alinhavar um plano de governo até quatro dias atrás, quinze dias antes das eleições. Ultimamente, o que caracterizou nossos intelectuais foi o silêncio. Eles mesmos admitiram essa constatação. Os mais independentes se limitaram a manifestar sua indignação diante da corrupção sem ao menos apresentar um esboço de solução. Não vi ninguém sugerir aumento das verbas para cursos superiores de contabilidade, auditoria e fiscalização, dizimadas durante o governo militar.

Todo país precisa de pessoas pensantes de várias disciplinas para, juntas, encontrar soluções para suas aflições. Os Estados Unidos devem muito a seus think tanks, como Brookings Institute, NBER, Russell Sage Foundation, muitos criados em 1910 e que contribuíram para o desenvolvimento do país. Leiam The Idea Brokers, de James A. Smith. Talvez seja por isso que o Brasil está à deriva, sem rumo e sem projeto. Pesquisem os sites de nossas principais universidades e procurem as “soluções para a corrupção”, “soluções para os juros altos”, “soluções para a questão da previdência”, “soluções para fazer o Brasil crescer”.

Quando muito encontraremos papers de um professor ou outro, raramente uma solução multidisciplinar incluindo direito, economia, administração, demografia, sociologia, medicina, atuária, só para citar as áreas que deveriam se reunir para achar uma saída para a previdência, por exemplo.

Nossos planos de combate à inflação não foram criados por universidades com o concurso de psicólogos, contadores de custos, administradores, advogados, publicitários, economistas de várias escolas, como deveria ter ocorrido. O mais drástico dos planos, o Plano Collor, foi elaborado às pressas por três economistas enfurnados num hotel.

O cerne do conceito de universidade é justamente congregar intelectuais num mesmo lugar ou “universo”, para que eles pesquisem e proponham soluções em conjunto. Se fosse para todos ficarem enfurnados em suas faculdades, não necessitaríamos de universidades. Quando eles assinam algo em conjunto, são muitas vezes abaixo-assinados ou artigos que não vão além da crítica, destrutiva de preferência, ou platitudes como “precisamos aumentar os gastos com a educação”.

Nossos intelectuais, com notórias exceções, têm muita dificuldade para desenvolver trabalhos em grupo. A grande maioria é no fundo individualista, egocêntrica, vaidosa e persegue seus interesses pessoais de pesquisa. Muitas das qualidades que eles próprios criticam e odeiam.

No setor privado, quem não sabe trabalhar em equipe ou em grupo não mantém o emprego nem um dia sequer. Não é esse o tipo de intelectual de que o Brasil desesperadamente necessita. Intelectuais custam caro. Sustentá-los para que fiquem pensando por nós nas faculdades é um luxo que somente países desenvolvidos têm condições de custear. Nossos intelectuais têm de mostrar mais eficiência e capacidade de cooperação entre si. Num país pobre, eles precisam justificar cada centavo que o povo neles deposita. Um recente estudo da OCDE mostra que o Brasil é o país que mais gasta com universidades e não tem o retorno que deveria.

Esse silêncio, essa flagrante omissão no especificar soluções multidisciplinares, em entrar nos detalhes, a tendência de ser simplesmente contra alguma coisa, não justifica o salário. Corremos o risco de o povo, os políticos, os governantes não mais acreditarem na manutenção da classe intelectual.

Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School
(www.kanitz.com.br)

Agosto 14, 2006

Bono, o magnata

Arquivado em: Cultura, Política — riomemo @ 2:55 pm

American magazines

Bono’s capitalist tool

Aug 10th 2006 | NEW YORK
From The Economist print edition

Forbes and an Irish rocker get together

“I DO not intend to fire myself,” says Steve Forbes, chief executive of his family’s media group, editor of its flagship business magazine and sometime presidential candidate. He dismisses talk that this week’s sale of a 40% stake in the group to a private-equity firm which numbers Bono, a rock star, among its founders, is the latest stage in his family’s liquidation of its assets in the face of financial difficulties. Recently the Forbes clan has sold its Fabergé eggs, the best of its Victorian art, some property and a private jet. On the contrary, insists Mr Forbes, the deal is to fund an ambitious growth strategy for the family firm.

In the name of internal rate of return 

 In the name of internal rate of return

Mr Forbes wants an injection of cash to develop Forbes Media’s online operations. Elevation Partners is paying between $250m and $300m for its stake. Roger McNamee, another of Elevation’s founders, seems to share his optimism. Mr McNamee says that the gloom in the print industry—at newspapers even more than magazines—is enormously overdone. Forbes, he says, has an authoritative voice and is trusted by its readers, not least because of its consistent enthusiasm for business ever since the “capitalist tool”, as it calls itself, was founded in 1917.

Elevation believes that the big opportunity may lie in the second phase of the commercial development of the internet. The first phase was all about aggregation, Mr McNamee says: the enthusiastic, indiscriminate pulling together of all sorts of things. This was a “difficult place” for print. Having an authoritative voice was undervalued then, but will be hugely valuable in “Web 2.0”, which will provide new ways to make money from well-written, accurate analysis of the business world.

Condé Nast, publisher of dozens of magazines, including the New Yorker and Vogue, reportedly bid for Forbes a while ago, but was put off by the price. Instead, it is to launch Portfolio, a business magazine of its own, next April. Insiders say that news of Condé Nast’s new title persuaded Mr Forbes and Elevation to conclude their long courtship.

As for Bono, investing in a publication that celebrates capitalism and consumption may seem to sit awkwardly with his crusades against world poverty, including a trip to Africa with Paul O’Neill, America’s treasury secretary at the time. Although he has not spoken publicly about Elevation’s investment, he presumably agrees with Mr Forbes, who believes that entrepreneurship is the best way to tackle poverty (the archetypical hero of a Forbes story is someone who pulls himself up from nothing). His fellow members of U2, Bono once said, would rather he hung out with businessmen than with politicians.

Agosto 13, 2006

Direita rules!

Arquivado em: Política, Uncategorized — riomemo @ 2:09 pm

47% do eleitorado diz ter posição política de direita Pesquisa Datafolha mostra que perfil conservador do brasileiro continua forte

Questões sobre aborto, pena de morte, maconha e maioridade penal revelam mentalidade ainda mais fortemente conservadora

FERNANDO CANZIAN
DA REPORTAGEM LOCAL

Pesquisa Datafolha revela que 47% do eleitorado brasileiro se define com sendo de “direita”. Outros 23% de “centro” e apenas 30% de “esquerda”.
Apesar de menos da metade se definir como de “direita”, é esmagadora a maioria que adota posições geralmente associadas ao conservadorismo, como a condenação ao aborto, às drogas e a defesa de medidas mais duras de combate ao crime.
A pesquisa mostra que são contra a descriminalização da maconha 79%. Do aborto, 63%. Outros 84% defendem a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e 51% querem a instituição da pena de morte.
Os percentuais gerais acima não diferem muito mesmo isoladamente em cada um dos grupos de eleitores (“direita”, “centro” e “esquerda”). Exemplo: entre os que se dizem de “esquerda”, 87% (mais do que a média) são favoráveis à redução da maioridade penal.
Em alguns temas, como aborto, drogas e pena de morte, os eleitores mais jovens se mostram até um pouco mais conservadores que os mais velhos.
No geral, também são pequenas as diferenças de opinião entre os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Geraldo Alckmin (PSDB). Os simpatizantes ao tucano são ligeiramente mais conservadores apenas em relação à maioridade penal e à pena de morte.
A pesquisa, feita na semana passada, ouviu 6.969 eleitores pelo país. Comparados aos resultados de levantamentos semelhantes nos últimos anos, os dados mostram que o perfil conservador do eleitor permanece forte desde a década de 90.
Para o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, embora boa parte do eleitorado não consiga discernir exatamente o que vem a ser “esquerda” ou “direita”, o posicionamento mais conservador do brasileiro “faz sentido”.
“Há elementos culturais que mudam com muita dificuldade no Brasil. Entre as pessoas menos sofisticadas, a busca de “soluções simples”, como a redução da maioridade penal, têm muitos atrativos”, afirma.
Walter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas no governo FHC e especialista em assuntos de segurança, vê nos resultados da pesquisa “uma falta de informação generalizada” entre a população.
“O brasileiro é muito mal informado sobre esses temas polêmicos e geralmente acaba se alinhando com posições que emanam dos EUA, onde essas discussões são mais profundas e conservadoras”, diz.
O cientista político norte-americano David Fleischer, professor da Universidade de Brasília, concorda. “A televisão é a grande fonte de informação do brasileiro. O imperialismo cultural e de costumes norte-americano, que ficou muito conservador nos últimos 20 anos, é uma forte referência.”
Newton Bignotto, professor de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, afirma que os resultados contraditórios da pesquisa atestam “a cacofonia da sociedade brasileira”. “Causa perplexidade a desconexão entre a percepção sobre os costumes, os costumes de fato e a cultura política.”
Para o psicanalista e colunista da Folha Contardo Calligaris “causa surpresa” o alto percentual (47%) dos que se dizem de “direita”. “Ser de “esquerda” geralmente traz uma posição mais gloriosa de si mesmo. Mas, que o brasileiro seja conservador, apenas confirma o fato de ele, em geral, não tomar posições de enfrentamento.”

Julho 27, 2006

Não há um deles que se salve

Arquivado em: Pilantragens Petistas, Uncategorized — riomemo @ 12:26 pm

27/07/2006 | 0:00

Procurador investigado

O procurador Guilherme Schelb, que infernizava o governo FHC, e tomou chá de sumiço na era do mensalão, foi submetido a sindicância do Ministério Público Federal: ele pedia dinheiro a empresas (algumas sob investigação) para apoiar projetos de sua empresa GS Centro de Educação e Prevenção da Violência Infanto-Juvenil Ltda. No MPF, Schelb está sujeito a diversas punições, incluindo sua demissão por justa causa.

Do site do Cláudio Humberto

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