Leitura Silenciosa

Julho 27, 2006

Não há um deles que se salve

Arquivado em: Uncategorized — riomemo @ 12:26 pm

27/07/2006 | 0:00

Procurador investigado

O procurador Guilherme Schelb, que infernizava o governo FHC, e tomou chá de sumiço na era do mensalão, foi submetido a sindicância do Ministério Público Federal: ele pedia dinheiro a empresas (algumas sob investigação) para apoiar projetos de sua empresa GS Centro de Educação e Prevenção da Violência Infanto-Juvenil Ltda. No MPF, Schelb está sujeito a diversas punições, incluindo sua demissão por justa causa.

Do site do Cláudio Humberto

Junho 18, 2006

Terrorismo Biológico (Veja, edição de 21 de junho)

Arquivado em: Pilantragens Petistas — riomemo @ 9:25 pm
Petistas são acusados de disseminar a praga
que destruiu a lavoura de cacau no sul da Bahia


Policarpo Junior

Anderson Schneider
Franco Timóteo, que confessa o crime: o plano era minar a influência política dos barões do cacau

No dia 22 de maio de 1989, durante uma inspeção de rotina, um grupo de técnicos descobriu o primeiro foco de uma infecção devastadora conhecida como vassoura-de-bruxa numa plantação de cacau no sul da Bahia. A praga é mortal para os cacaueiros. Os técnicos, porém, se tranqüilizaram com a suposição de que se tratava apenas de um foco isolado. Engano. Em menos de três anos, de forma espantosamente veloz e estranhamente linear, a vassoura-de-bruxa destruiu as lavouras de cacau na região – e fez surgir um punhado de explicações para o fenômeno, inclusive a de que o Brasil poderia ter sido vítima de uma sabotagem agrícola por parte de países produtores de cacau da África, como Costa do Marfim e Gana. Reforçando, então, as suspeitas de sabotagem, técnicos encontraram ramos infectados com vassoura-de-bruxa amarrados em pés de cacau – algo que só poderia acontecer pela mão do homem, e nunca por ação da própria natureza. A Polícia Federal investigou a hipótese de sabotagem, mas, pouco depois, encerrou o trabalho sem chegar a uma conclusão. Agora, dezessete anos depois, surge a primeira testemunha ocular do caso. Ele conta que houve, sim, sabotagem, só que realizada por brasileiros.

Em quatro entrevistas a VEJA, o técnico em administração Luiz Henrique Franco Timóteo, baiano, 54 anos, contou detalhes de como ele próprio, então ardoroso militante esquerdista do PDT, se juntou a outros cinco militantes do PT para conceber e executar a sabotagem. O grupo, que já atuava em greves e protestos organizados na década de 80 em Itabuna, a principal cidade da região cacaueira da Bahia, pretendia aplicar um golpe mortal nos barões do cacau, cujo vasto poder econômico se desdobrava numa incontrastável influência política na região. O grupo entendeu que a melhor forma de minar o domínio político da elite local seria por meio de um ataque à base de seu poder econômico – as fazendas de cacau. "O imperialismo dos coronéis era muito grande. Só se candidatava a vereador e prefeito quem eles queriam", diz Franco Timóteo. A idéia, diz ele, partiu de Geraldo Simões, figura de proa no PT em Itabuna que trabalhava como técnico da Ceplac, órgão do Ministério da Agricultura que cuida do cacau. Os outros quatro membros do grupo – Everaldo Anunciação, Wellington Duarte, Eliezer Correia e Jonas Nascimento – tinham perfil idêntico: eram todos membros do PT e todos trabalhavam na Ceplac.

O fazendeiro Ozéas Gomes, que viu seu negócio murchar com a praga: "Fiquei com muita raiva"

Franco Timóteo conta que, bem ao estilo festivo da esquerda, a primeira reunião em que o assunto foi discutido aconteceu num bar em Itabuna – o Caçuá, que não existe mais. Jonas Nascimento explicou que a idéia era atingir o poder econômico dos barões do cacau. Geraldo Simões sugeriu que a vassoura-de-bruxa fosse trazida do Norte do país, onde a praga era – e ainda é – endêmica. Franco Timóteo, que já morara no Pará em 1976, foi escolhido para transportar os ramos infectados. "Então eu disse: 'Olha, eu conheço, sei como pegar a praga, mas tem um controle grande nas divisas dos estados'." Era fim de 1987, início de 1988. Apesar do risco de ser descoberto no caminho, Franco Timóteo foi escalado para fazer uma primeira viagem até Porto Velho, em Rondônia. Foi de ônibus, a partir de Ilhéus. "Em Rondônia, qualquer fazenda tem vassoura-de-bruxa. Nessa primeira viagem, peguei uns quarenta, cinqüenta ramos. Coloquei num saco plástico e botei no bagageiro do ônibus. Se alguém pegasse, eu abandonava tudo." Nos quatro anos seguintes, repetiria a viagem sete ou oito vezes, com intervalos de quatro a seis meses entre uma e outra. "Mas nas outras viagens trouxe os ramos infectados num saco de arroz umedecido. Era melhor. Nunca me pegaram."

Franco Timóteo conta que, quando voltava para Itabuna, entregava o material ao pessoal encarregado de distribuir a praga pelas plantações. A primeira fazenda escolhida para a operação criminosa chamava-se Conjunto Santana, ficava em Uruçuca e pertencia a Francisco Lima Filho, então presidente local da União Democrática Ruralista (UDR) e partidário da candidatura presidencial de Ronaldo Caiado. Membro de uma tradicional família cacaueira, Chico Lima, como é conhecido, tinha o perfil ideal para os sabotadores: era grande produtor e adversário político. "Chico Lima era questão de honra para nós", diz Franco Timóteo. Foi justamente na fazenda de Chico Lima que foi encontrado o primeiro foco de vassoura-de-bruxa, em 22 de maio de 1989 – e a imagem dos técnicos, no exato momento em que detectam a praga, ficou registrada numa fita de vídeo à qual VEJA teve acesso. Como medida profilática os técnicos decidiram incinerar todos os pés de cacau da fazenda. Chico Lima ficou arruinado. Hoje, arrenda as terras que lhe restam e vive dos lucros de uma distribuidora de bebidas. Informado por VEJA da confissão de Franco Timóteo, ele lembrou que sempre se falou de sabotagem – mas de estrangeiros – e mostrou-se chocado. "Isso é um crime muito grande, rapaz. Os responsáveis têm de pagar", disse.

Os ataques às fazendas, todas situadas ao longo da BR-101, aconteciam sempre nos fins de semana, quando diminui o número de funcionários. O grupo tinha o cuidado de usar um carro com logotipo da Ceplac para criar um álibi: se eles fossem descobertos por alguém, diriam que estavam fazendo um trabalho de campo. "A gente chegava, entrava, amarrava o ramo infectado no pé de cacau e ia embora. O vento se encarregava do resto", conta Franco Timóteo. Para dar mais verossimilhança a uma suposta disseminação natural da vassoura-de-bruxa, o grupo tentou infectar pés de cacau numa lavoura mantida pela própria Ceplac. Não deu certo, devido à presença de um vigia, e o grupo acabou esquecendo, no atropelo da fuga, um saco com ramos infectados sobre a mesa do escritório da Ceplac. A operação criminosa, por eles apelidada de "Cruzeiro do Sul", desenrolou-se por menos de quatro anos – de 1989 a 1992. "No início de 1992, parou. Geraldo Simões disse que a praga estava se propagando de forma assustadora. Não precisava mais."

Haroldo Abrantes/Ag. A Tarde
Beto Barata/AE

Os sabotadores nunca foram pegos, mas deixaram muitas pistas. "Encontramos provas de que houve sabotagem em várias fazendas", conta Carlos Viana, que trabalhava como diretor da Ceplac quando a praga começou a se disseminar. Ele se lembra do saco plástico esquecido sobre a mesa do escritório da Ceplac numa das lavouras – e isso o levou, inclusive, a acionar a Polícia Federal para investigar a hipótese de sabotagem. "Uma coisa eu posso garantir: os focos não foram acidentais", diz Viana, que deixou o órgão e tem hoje uma indústria de óleo vegetal. Um relatório técnico e oficial, elaborado pela Ceplac logo no início das investigações, chegou a considerar a hipótese de que produtores do Norte do país teriam levado a vassoura-de-bruxa para as plantações da Bahia – mas movidos por "curiosidade ou ignorância". O relatório afirma que a chegada à Bahia da Crinipellis perniciosa, nome científico do fungo causador da vassoura-de-bruxa, "não pode ser atribuída a agentes naturais de disseminação". VEJA consultou Lucília Marcelino, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em Brasília, para saber se a história contada por Franco Timóteo seria viável. "Sob o ponto de vista técnico, sim", diz ela.

A sabotagem produziu um desastre econômico. Derrubou a produção nacional para menos da metade, desempregou cerca de 200.000 trabalhadores e fez com que o Brasil, então o segundo maior produtor mundial de cacau, virasse importador da fruta. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas, elaborado em 2002, estima que a devastação do cacau na Bahia provocou, nos últimos quinze anos, um prejuízo que pode chegar à astronômica cifra de 10 bilhões de dólares. Mas, na mesquinharia política dos sabotadores, o plano foi um sucesso. Em 1992, no primeiro pleito depois da devastação, Geraldo Simões elegeu-se prefeito de Itabuna pelo PT – e presenteou os quatro companheiros de sabotagem com cargos em sua gestão. Everaldo Anunciação foi nomeado secretário da Agricultura – cargo que deixaria dois anos depois, sendo substituído por Jonas Nascimento, o outro petista sabotador. Wellington Duarte, também membro do grupo da sabotagem, ficou como chefe-de-gabinete do prefeito. E Eliezer Correia ganhou o cargo de secretário de Administração e Finanças. Como não pertencia ao PT, Franco Timóteo não ganhou cargo algum na prefeitura. Em 1994, com o recrudescimento de suspeitas de que a vassoura-de-bruxa fora uma sabotagem, ele resolveu deixar Itabuna e mudar-se para Rondônia. O prefeito lhe deu um cheque de 250.000 cruzeiros reais (o equivalente a 800 reais hoje) para ajudar nas despesas da viagem – paga, para variar, com dinheiro público. A operação consta da contabilidade da prefeitura, em que está registrada sob o número 2 467, e informa que o beneficiário era mesmo Franco Timóteo, mas, providencialmente, não há processo descrevendo o motivo do pagamento. "É estranho. Se havia algum processo, sumiu", diz o atual prefeito, Fernando Gomes, do PFL.

Anderson Schneider
Francisco Lima, ex-presidente da UDR, foi a primeira vítima: de barão a vendedor de cerveja

Nos últimos anos, Franco Timóteo tem sido assaltado pelo remorso do crime que cometeu. Um dos atingidos era seu parente. Silvano Franco Pinheiro, seu primo, tinha uma empresa de exportação de semente de cacau que chegou a faturar 30 milhões de dólares por ano. "Perdi tudo", conta Pinheiro, que, há seis anos, ouviu a confissão de Franco Timóteo. "Falei para ele sumir da cidade porque seria morto", conta o primo. Para expiar sua culpa, Franco Timóteo também fez sua confissão para outro fazendeiro, Ozéas Gomes, que chegou a produzir 80.000 arrobas de cacau e empregar 1.400 funcionários – e hoje mantém ainda um padrão confortável de vida, mas emprega apenas 100 funcionários, A produção caiu para 15.000 arrobas. "Quando ouvi a história, fiquei com muita raiva. Mas, depois, ele explicou que não tinha idéia da dimensão do que fazia…" No fim do ano passado, Franco Timóteo confessou-se ao senador César Borges, do PFL baiano e plantador de cacau. "A história dele tem muitos pontos de veracidade diante do que a gente sempre suspeitou ter acontecido", diz o senador. O governador Paulo Souto, cujos familiares perderam tudo devido à vassoura-de-bruxa, também ouviu uma confissão de Franco Timóteo. O senador e o governador, porém, decidiram ficar em silêncio, segundo eles para evitar a acusação de exploração política.

Os acusados desmentem categoricamente qualquer envolvimento na sabotagem e dizem até que nem sequer conhecem Franco Timóteo. "Nunca vi esse louco", diz Geraldo Simões, que, no governo Lula, ganhou a presidência da Companhia das Docas da Bahia, da qual se afastou agora para concorrer a deputado federal pelo PT. "Essa história toda é fantasiosa", diz Eliezer Correia, que continua cuidando de cacau e hoje é chefe de planejamento da Ceplac, em Itabuna. "É um absurdo", diz Wellington Duarte, que, no atual governo, foi promovido a um dos chefões da Ceplac em Brasília. Everaldo Anunciação, que foi nomeado para o cargo de vice-diretor da Ceplac, diz que não liga o nome à pessoa. Jonas Nascimento – demitido a bem do serviço público na década de 90, voltou numa função comissionada, em 2003, no Centro de Extensão da Ceplac em Itabuna – é o único que admite conhecer Franco Timóteo, mas nega a história. Talvez seja o único a contar um pedaço da verdade. Ouvido por VEJA, o publicitário Ithamar Reis Duarte, ex-secretário de Meio Ambiente na gestão do petista Geraldo Simões, conta que essa turma toda – Franco Timóteo e os petistas – é de velhos conhecidos. "Era um grupo que se reunia sempre para planejar ações", diz ele, que participou de alguns encontros. "Fazíamos reuniões até no meu escritório. Se alguém negar isso, estará mentindo."

 

 

 

 

Junho 4, 2006

O ano em que desistimos (FSP, 04/06/2006)

Arquivado em: Política — riomemo @ 10:39 pm

O que beira as raias do chocante é que a sociedade brasileira tenha aquiescido e aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de escândalo

GUSTAVO IOSCHPE
ESPECIAL PARA A FOLHA

O MAIS surpreendente destes doze meses em que começamos a chamar parlamentares de "mensaleiros" não é que uma fatia aparentemente expressiva de nossos deputados recebesse uma mesada para votar com o governo. Nem que os deputados achassem que podiam se inocentar desse crime através da confissão de outro (caixa dois). Nem que eles efetivamente tenham sido inocentados. Nem que um deles tenha conjurado para sua absolvição uma trama certamente demasiado rocambolesca para ser aceita no mais mexicano dos folhetins: a esposa foi ao banco pagar a conta da TV a cabo e saiu de lá com 50 mil reais. Nem que o escárnio tenha chegado a tal ponto que uma congressista tenha se sentido suficientemente à vontade no ambiente prostibular que se tornou o belo prédio de Niemeyer para desfilar seus desajeitados passes do funk da sem-vergonhice. Nem que recursos de empresas estatais fossem uma fonte do numerário usado para alimentar os mensaleiros, configurando um novo e tenebroso nível de estelionato no país, em que os recursos do Estado são utilizados para irrigar um partido a chegar e manter-se no poder, solapando a isonomia que é a essência do regime democrático. Nem que o marqueteiro do presidente tenha reconhecido, aos prantos, que recebeu dinheiro no exterior -uma única vez!- para realizar a campanha política de petistas. Nem que depois tenhamos descoberto que aquela não havia sido a única. Nem que, do "núcleo duro" do governo, um membro tenha sido cassado e indiciado por suspeitas de chefiar a máfia, outro tenha sido forçado a pedir demissão e tenha também sido indiciado por abiscoitar propinas em seus tempos de prefeito e o terceiro tenha abandonado seu ministério por negócios escusos com um familiar. Nem que um ministro da Fazenda tenha entrado em conluio com o presidente do segundo maior banco público do país para violar o direito à privacidade de um caseiro e divulgar seu sigilo bancário à imprensa. Nem que o procurador-geral da República tenha oferecido denúncia contra 40 das mais altas cabeças da República por formação de quadrilha e tenha chamado o partido ora no poder de "sofisticada organização criminosa". Nem que dinheiro público tenha aparecido numa cueca em um detector de metais de um aeroporto. Nem mesmo que o nosso presidente -aquele que nomeou e chefiou toda a gangue e que tem ao seu dispor todo o aparato de informação e inteligência das forças de investigação civis e militares- consiga se manter no cargo única e exclusivamente por alegar desconhecimento de tudo e todos que estavam à sua volta e que foi traído. (Em outros países, desconhecimento, autismo e ingenuidade desqualificam a pessoa para o exercício da Presidência. No Brasil, tornam-na favorita para a reeleição.)
Não. Tudo isso é grotesco, é revoltante, é pusilânime, é roto e vergonhoso. Mas não chega a ser surpreendente porque, infelizmente, a única coisa que nos surpreende em nossos homens públicos é a correção, a ética, a honestidade.
O que é verdadeiramente surpreendente, o que beira as raias do chocante é que, envolta e soterrada por essa avalanche de esterco, enganada e vilipendiada por seus representantes eleitos e sabendo que os contos da carochinha contados por eles em sua defesa não passavam de empulhação da grossa, a sociedade brasileira tenha aquiescido e aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de escândalo. Que tenha relevado aquilo que povos sadios teriam visto como acinte. Que num país de 180 milhões de almas penadas não tenha havido um partido, um sindicato, um grêmio estudantil, uma ONG ou uma roda de bocha sequer com a disposição de ir às ruas, de convocar uma passeata, de jogar um mísero tomate ou dar um grito solitário contra essa patifaria que nos confisca a nação.
Com o silêncio, tornamo-nos cúmplices. Por que essa inação? Será que as duas décadas de miasma econômico nos deixaram suscetíveis a acreditar que um crescimento econômico que só superou o haitiano é realmente uma boa performance? Nos vendemos por tão pouco? Ou será que a fadiga com o sistema político chegou ao ponto da total indiferença? Será que depois de apostarmos na redemocratização, no presidente-carateca, no presidente-sociólogo e no presidente-operário e vermos nossas expectativas cada vez mais frustradas finalmente abandonamos o barco? Não sei. O certo é que esses últimos doze meses, esses sombrios e desalentadores doze meses marcam a nossa desistência. Lavamos as mãos.
Daqui pra frente nossa democracia será como aqueles casamentos em que os cônjuges mal disfarçam sua infidelidade. Permanecem casados por um misto de conveniência e obrigação, mas ambos sabem que nenhuma das partes pode ser confiada, nem tampouco que cabe qualquer indignação frente aos abusos e omissões do outro. Os eleitos nos enganam e os eleitores tentamos burlar leis, sonegar taxas e tratar a urna como penico, e ficamos acertados que ninguém denunciará as impropriedades do outro.
Estamos num grande e árido deserto, sem ninguém que possa nos conduzir pelo mar vermelho-lama que cada vez ocupa mais espaços. Talvez um dia nosso povo chegue à Terra Prometida, mas não será nesta geração.


GUSTAVO IOSCHPE , 29, mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale (Estados Unidos), é autor de "A Ignorância Custa um Mundo – O Valor da Educação no Desenvolvimento do Brasil" (Editora Francis, 2004) e "Vestibular Não é o Bicho" (Editora Artes e Ofícios, 1996). Foi colaborador da Folha nos cadernos Fovest (1996-1997) e Folhateen (1997-2000).

Maio 26, 2006

The markets and the world economy (The Economist, edição de 25/05/06)

Arquivado em: Economia — riomemo @ 5:41 pm

 Bears in the woods

May 25th 2006
From The Economist print edition

Despite the rattled markets, the world economy is still

relatively strong. Just don't bet your house on it

IF YOU meet a bear in the woods, try not to panic or scream; on no account should you turn your back and run. As markets around the world have turned grizzly over the past two weeks, some investors seem to have forgotten the old hikers' maxim. After three years of big gains, many stockmarkets have tumbled by 10% or more in less than ten days. The loudest growls have echoed around emerging markets and commodities. Europe has surrendered most of this year's gains. Americans have so far escaped lightly, but they would be unwise to take comfort. Their housing market, the recent rock of their economy, is where a much grizzlier creature lies in wait.

Most investors tend to look first at equity markets—and they have certainly had a good run virtually everywhere. Yet a repeat of the slump after the bursting of the dotcom bubble in 2001-02 remains highly unlikely. In 2000 shares were wildly overvalued. Today price/earnings ratios in most stockmarkets are near, if not below, their long-term averages. This suggests that the slide in shares could be short-lived. 

So what has caused this burst of volatility? One popular explanation conjures up fears of rising inflation and hence higher interest rates (see article). Yet this sits oddly with the fall in bond yields and the gold price over the past week: if inflation were the culprit, you would expect both to have risen. The real puzzle is not why volatility has suddenly increased, but why it had been so low in the past year or so. The answer seems to be an abundance of cheap money, which lured investors into complacency. Now they are starting to demand higher returns on riskier assets. Emerging-market equities and metals, not (generally safer) bonds, suffered the biggest mauling in the past week. It could be a healthy correction.

A formidable machine

Indeed, the recent jitters need not harm the world economy, which even bears admit has performed stunningly. World GDP has grown at an annualised rate of more than 4% for 11 consecutive quarters (see our economic and financial indicators). This is the strongest upturn for more than 30 years. Yet global inflation remains historically low. Strong growth with mild inflation is all the more amazing given the tripling of oil prices since 2003. Past oil-price shocks have caused stagflation.

The world has so far shrugged off higher oil prices with the help of two powerful economic forces. The first is the opening up and integration into the world economy of China, India and other emerging economies. This has given the biggest boost to global supply since the industrial revolution. Their cheap labour has cut the cost of goods. The threat that jobs in rich economies could move offshore has helped hold down wages. Although demand from emerging economies has fuelled the surge in oil and commodity prices, the newcomers' overall effect has been to curb inflation in the rich world.

That, in turn, has magnified the second stimulus. Since the bursting of the dotcom bubble, central banks have pumped out cheap money. In 2003 average short-term interest rates in the G7 economies fell to their lowest in recorded history. Because inflation remained low, the central banks have been slow to mop up the excess liquidity. Cheap money has encouraged households, especially American ones, to borrow and spend lavishly. It is not just house prices that have surged ahead; cheap money has encouraged investors across the world to take bigger risks, creating several smaller bubbles. Together the huge boost to supply (from emerging economies) and the huge boost to demand (from easy money) have offset the burden of higher oil prices, creating the once-impossible combination of robust growth and modest inflation.

Don't panic

The era of cheap money is nearing an end. For the first time in 15 years, the three big central banks are now all tightening monetary policy. The European Central Bank has already followed the Federal Reserve's lead in raising interest rates; the Bank of Japan has stopped printing lots of money and will start lifting rates soon. Only now are the markets realising that interest rates may rise by more than they had expected. In the long term, rates should be roughly equal to nominal GDP growth, but in America and elsewhere they are still well below it. Optimists argue that America's economy is coping well with rising interest rates, but it hasn't really sniffed tight money yet. Without easy credit, dear oil will cause more pain.

Until recently, financial markets appeared to be betting that the Goldilocks economy—neither too hot, nor too cold—was safe from the bears. The rattled markets are a reminder that sooner or later growth will slow or inflation will rise. Inflation is not about to spiral upwards but with diminishing spare capacity, it could edge up. America has an extra risk because Wall Street suspects that Ben Bernanke, the Fed's new chairman, may be a soft touch on inflation. If that suspicion persists, he will need to raise interest rates by more than otherwise—or investors will do the tightening for him by pushing up bond yields. That would make other assets look expensive.

It is in the American housing market that the bear may growl loudest. By borrowing against the surging prices of their homes, American consumers have been able to keep on spending. The housing market is already coming off the boil (see article). If prices merely flatten, the economy could slow sharply as consumer spending and construction are squeezed. If house prices fall as a result of higher bond yields, the American economy could even dip into recession. Less spending and more saving is just what America needs to reduce its current-account deficit, but for American households used to years of plenty it will hurt.

For the world, it is best that America slows today. Later, imbalances will loom even larger. A few years ago, Japan and the euro-area economies were flat on their backs. Now they are growing “above trend”, so the world depends less on America than it once did. The boost to the world economy from China and India will last into the future, even allowing for mishaps. Wise investors should resist the urge to flee, reduce their holdings of risky assets and stare down the bear.

Maio 20, 2006

Dantas fez, entregou e continua operando (Veja, edição de 24 de maio)

Arquivado em: Política — riomemo @ 2:46 pm

Documentos desmentem Dantas e derrubam
suas versões sobre o dossiê que passou a VEJA.
Mas ele ainda conversa com o governo

Marcio Aith

Joedson Alves/AE

Dantas: ele pagou quase 1 milhão de dólares aos espiões de contas

A lista das supostas contas

Em sua edição passada, na reportagem sobre o arsenal do banqueiro Daniel Dantas contra o governo, VEJA revelou que ele incluía supostas contas de autoridades brasileiras no exterior. Para ilustrar a matéria, a revista publicou a cópia de uma lista (à direita) enviada por ordem de Dantas a VEJA, que tomou o cuidado de apagar o número das supostas contas e o nome dos bancos. Ainda assim, o fato de tê-la publicado causou várias reações. Uma delas foi a afirmação de que a lista não provava nada. De fato não prova – nem VEJA pretendeu o contrário. Ao publicá-la, a revista quis tão-somente mostrar que tinha em seu poder papéis repassados por Dantas. Todos eles foram entregues ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Ao longo da semana passada, os repórteres da revista empenharam-se em acompanhar os desdobramentos da crise causada pela primeira reportagem. Neste quadro, o leitor encontra um resumo da apuração.

A MÃO DO BANQUEIRO
A lista com as supostas contas de petistas não chegou à redação de VEJA por acaso – versão divulgada por Dantas, em acordo com o governo, e comprada por jornalistas ingênuos. Foi oferecida pessoalmente pelo banqueiro à direção da revista e entregue por seus espiões. A operação deixou gravações e rastros

ELE DOBROU DIRCEU
Documento inédito mostra Dantas numa conference call com o espião Holder, que o banqueiro afirma mal conhecer. O que diz Dantas nessa reunião? Que o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) se comprometeu a defender os interesses do Opportunity desde que não fosse investigado pela Kroll. Dantas também diz que alguns membros da Polícia Federal são corruptíveis e podem atuar como mercenários

DE NOVO NA CASA ERRADA, MINISTRO
Enquanto o governo e jornalistas ingênuos se ocupavam em atacar VEJA por causa de sua reportagem sobre o dossiê do banqueiro, Dantas teve um encontro secreto com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, na noite da última quarta-feira, em Brasília. Eles combinaram uma trégua. Familiar? Sim: há dois meses Bastos participou da reunião em que o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda) tentou apagar as provas da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa

EM PODER DO PROCURADOR
Como registrou em sua edição passada, VEJA não dispõe dos meios legais necessários para conferir todas as informações do dossiê de Dantas. Por isso, remeteu tudo o que recebeu do banqueiro ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza – talvez a única pessoa hoje em Brasília isenta e confiável para analisar o material de 41 páginas, das quais constam 27 supostas contas de sete autoridades – com seus números, bancos, saldos e supostos caminhos utilizados pelos espiões de Dantas para localizá-las

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Uma apuração exemplar

Em reportagem publicada na semana passada, VEJA informou ter recebido do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, por meio de um ex-espião da agência de investigações Kroll, documentos com supostas contas, em paraísos fiscais, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de ministros e ex-ministros de seu governo, do senador Romeu Tuma e do diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda. O simples fato de um cidadão com o histórico policial de Daniel Dantas deter uma lista com supostos segredos financeiros da cúpula do governo deveria causar uma reação enérgica do Estado contra o banqueiro. Estranhamente, Lula e seus principais ministros decidiram poupá-lo. Em vez de apurarem o conteúdo da mensagem, insurgiram-se contra o mensageiro.

Lula fez a VEJA o mais destemperado ataque verbal já desferido por um presidente contra um órgão de imprensa desde a redemocratização. Enquanto isso, e não por coincidência, Dantas admitia conhecer os documentos, mas negava, em entrevistas que deveriam ingressar no anedotário da ingenuidade jornalística, tê-los encomendado à Kroll e os entregado a VEJA. Não foi uma boa estratégia. Dantas ofereceu o material pessoalmente à revista e o entregou por intermédio de Frank Holder, ex-diretor da Kroll. A operação envolveu vários emissários de Dantas, o próprio banqueiro e deixou registros e gravações suficientes para ocupar várias edições de VEJA.

Os repórteres da revista empenharam-se em acompanhar os desdobramentos da crise causada pela primeira reportagem. Descobriram fatos igualmente graves. Ao mesmo tempo que VEJA era atacada pelo governo e por colunistas e editorialistas crédulos, loucos para acreditar em tudo que favoreça o governo, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reunia-se secretamente com Dantas. O encontro ocorreu em Brasília, na noite de quarta-feira 17. VEJA apurou que Dantas e Bastos celebraram uma trégua. O governo não colocaria a Polícia Federal na cola do banqueiro desde que Dantas e seu investigador fechassem a boca – e que o banqueiro segurasse seus sócios e cúmplices, caso eles viessem a ser convocados a depor na CPI dos Bingos. Quando sair a versão oficial do encontro, ela com toda a certeza será candidamente reproduzida sem contestação pelos crédulos, ingênuos e aqueles com interesses financeiros em agradar ao governo.

Rafael Neddermeyer/AE

Thomaz Bastos: reunião secreta com o banqueiro "inimigo"

O encontro entre Dantas e o ministro da Justiça é escandaloso. Dantas acusa o ministro Bastos de ter contas não declaradas no exterior. Se essa acusação é falsa, como sustenta o ministro, Bastos deveria esforçar-se para prender o banqueiro, e não se sentar à mesa com ele para tratar de negócios. Não é a primeira vez que o ministro é flagrado na casa errada. Há dois meses, VEJA revelou sua participação em reunião na qual o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda) tentou apagar as provas da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa. Ele não perdeu o cargo naquela ocasião pela lassidão moral da política brasileira. É possível que a mesma lassidão o garanta no cargo novamente. O curioso é que, na noite de quarta-feira, enquanto Bastos se encontrava com o banqueiro investigado pela Polícia Federal, a própria Polícia Federal, de quem Bastos é superior hierárquico, deixava vazar que convocaria um editor executivo de VEJA e o colunista Diogo Mainardi para depor em Brasília. Ou seja, enquanto mandava a PF incomodar os mensageiros, o ministro negociava com o autor da mensagem.

VEJA também foi a campo entender melhor por que Bastos e outros ministros tratam Dantas com temor. Obteve nos Estados Unidos um documento precioso cujo original está em poder da Justiça americana: uma ata, escrita pela Kroll, resumindo uma conferência telefônica realizada em 10 de fevereiro de 2005 entre diretores da Kroll e o banqueiro e sua turma. Nela, Dantas faz revelações. Diz que o então ministro José Dirceu (Casa Civil) e o governo do PT como um todo comprometeram-se a defender os interesses do Opportunity. Para isso haveria uma condição: que eles não fossem investigados pela Kroll. Dantas descreve setores da Polícia Federal como corruptíveis e mercenários. Curiosidade: também participou da conferência telefônica o espião Holder, a quem Dantas agora alega mal conhecer.

O ex-ministro José Dirceu: apoio ao banqueiro para ver-se livre da espionagem da Kroll

Confrontado com as entrevistas que Dantas concedeu a jornais nesta semana, o documento mostra que existem dois Dantas. Um, o verdadeiro, é o que anda nos porões. O outro, o de fachada, é aquele em que os jornalistas ingênuos acreditam. Este último esteve ativo em algumas entrevistas nas quais admitiu vagamente que conhecia a lista com supostas contas bancárias, que classificou como "inverossímeis". Não lhe foi perguntado em que circunstâncias Dantas soube desses papéis, por quem, quando e onde. Ele admitiu apenas que conhecia o espião Frank Holder, o compilador das listas, assim assim, como que de passagem.

Dantas aliou-se ao governo na tentativa de desmoralizar VEJA. É uma estratégia arriscada, considerando o volume de conversas gravadas e de outros registros feitos durante os nove meses em que a revista esteve em contato com o banqueiro e seus espiões. A estratégia começou a ruir graças a jornalistas de O Estado de S. Paulo, em franco contraste com um de seus editorialistas, o crédulo, o oficialesco, o assustadiço. Na segunda-feira passada, os jornalistas fizeram uma grave denúncia: o governo decidira atacar VEJA e poupar o banqueiro. A razão da escolha? Segundo o jornal, VEJA fora escolhida como alvo preferencial pois, na avaliação do governo, Dantas teria ainda muita munição. Pena que o jornal não tenha aprofundado a investigação suscitada pela reportagem em questão. Não houvesse perdido o rumo ético há um bom tempo, o governo Lula teria de ser confrontado com o absurdo moral de atacar uma publicação que fez o seu trabalho. Mas isso é, realisticamente, perda de tempo.

Na terça-feira, o mesmo jornal revelou que a Brasil Telecom, empresa que Dantas controlou, pagou, ao longo de 2005, centenas de milhares de dólares diretamente ao espião Holder – aquele que Dantas dissera mal conhecer e que, segundo ele, coleta informações inverossímeis. Na última sexta-feira, um documento publicado na revista Carta Capital comprovou que esses pagamentos totalizaram 838.000 dólares. A publicação foi além: lembrou que o senador Heráclito Fortes (PFL-PI), velho aliado de Dantas, fez várias alusões a contas bancárias no exterior durante o depoimento do ministro Luiz Gushiken à CPI dos Correios, no dia 14 de setembro passado: "Não era uma característica da Kroll, no mundo inteiro, fazer gravações telefônicas, como se queria provar e mostrar, mas, sim, rastreamento de contas e outras atividades", disse o senador ao ministro. "O medo da Kroll tem outro fundamento, senhor Gushiken, e a verdade vai chegar. É só questão de esperar, é só questão de tempo. Na verdade, o pavor que o governo tem da Kroll tem outro fundamento e nós vamos chegar à verdade."

Valeria Gonçalves/AE

Mangabeira: contratado por Dantas. Para pensar

VEJA divulgou apenas um dos 41 papéis que recebeu dos espiões de Dantas e, mesmo assim, tomou o cuidado de apagar o nome das instituições financeiras e os supostos números de contas. Muitos compararam o episódio à divulgação do Dossiê Cayman, a papelada falsa que, em 1998, tentava incriminar o então presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros José Serra e Sergio Motta e o governador de São Paulo, Mário Covas, como donos de uma empresa num banco das Antilhas. A comparação não se sustenta não só porque VEJA tomou o cuidado de apagar informações sensíveis, mas, principalmente, porque a revista apontou o nome do mandante do dossiê, o nome do fabricante do dossiê e chamou atenção para o uso dos papéis como instrumento de chantagem.

Outros criticaram a revista por publicar informações ainda não comprovadas, lembrando ser essencial, num jornalismo com pretensões éticas, confirmar as informações antes de publicá-las. VEJA concorda com a premissa, mas não aceita a crítica. Está confirmado e provado que foi o banqueiro Daniel Dantas quem pagou 838.000 dólares pelo dossiê; está confirmado e provado que o autor dos papéis é o ex-diretor da Kroll Frank Holder, um dos mais experientes e respeitados investigadores privados americanos; está confirmado e provado que Dantas usou o dossiê como elemento de chantagem. Vale lembrar que os nomes dos fabricantes do Dossiê Cayman – todos obscuros meliantes do submundo de Miami – só vieram à tona dois anos depois de sua divulgação. Além disso, as fontes que vazaram aqueles papéis falsificados permanecem incógnitas.

Joedson Alves/AE

Procurador-geral: ilha de isenção

VEJA não denunciou a existência de contas de petistas e outras autoridades em paraísos fiscais, ao contrário da versão comprada por jornalistas ingênuos nesta última semana. VEJA informou que um banqueiro poderoso tem em mãos e usa como instrumento para obter vantagens oficiais uma lista com supostos números de contas em paraísos fiscais do presidente da República e de autoridades brasileiras no exterior – isso é notícia. Foi essa a notícia que VEJA publicou. A revista deixou claro que não pôde comprovar a autenticidade dos papéis, que podem ser todos eles uma fraude. Mesmo assim, é custoso acreditar que o banqueiro tenha gasto tanto tempo e dinheiro na contratação e instrumentação dos melhores espiões internacionais e tenha saído da operação com um monte de documentos de fantasia. Fosse tudo fantasia, teria o ministro Márcio Thomaz Bastos se abalado a, arriscando o próprio cargo, encontrar-se secretamente com o banqueiro Dantas? Afinal, Dantas não é o inimigo da PF, o investigado pela polícia e que, segundo o governo, falsifica papéis para derrubar o próprio governo? Fosse tudo fantasia, o ex-ministro José Dirceu teria se curvado aos interesses de Dantas sob a ameaça do escrutínio da Kroll, como mostra a ata da teleconferência em poder da Justiça americana?

É tudo fantasia? Na esperança de que a apuração caminhe agora pelas vias oficiais, VEJA, na semana passada, entregou todos os 41 documentos de que dispunha ao procurador-geral da República – única autoridade com estofo ético e poderes para investigar o caso.

A prova da chantagem

"Dantas afirmou que a informação relatada por JK [Jules Kroll] confirma sua impressão da situação. (…) Ele afirmou especificamente ter recebido confirmação direta de uma fonte muito próxima ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de que enquanto Dirceu não fosse investigado (…) ele apoiaria Dantas"

"Dantas relatou que, uma vez que o governo Lula estivesse livre da preocupação de que não era parte de nenhuma investigação, não exerceria nenhum papel ativo nos eventos que se seguiriam. Dantas apontou que a operação policial foi conduzida diretamente pela Polícia Federal, mas sem o conhecimento nem o apoio do governo. Dantas sugeriu que existem elementos na Polícia Federal que podem trabalhar independentemente e que, se corrompidos, agiriam como mercenários. O estilo do ministro da Justiça, Bastos, conhecido por não interferir nos assuntos relacionados à conduta da polícia, embasa essa opinião"

O documento acima mostra que Daniel Dantas usou o poder de espionagem da Kroll para chantagear o governo Lula, de modo geral, e o então ministro José Dirceu, de maneira específica. É a transcrição da ata de uma conferência telefônica realizada no dia 10 de fevereiro de 2005 entre o banqueiro, sua turma e a direção da Kroll. Na transcrição da conversa, Dantas diz que Dirceu estava disposto a defender os interesses do Opportunity junto ao governo. Em troca, Dirceu exigiria a garantia de não ser alvo de espionagem. Em outro trecho, o banqueiro diz que o governo Lula como um todo ficaria satisfeito em evitar investigações. Afirma ainda conhecer "elementos" da Polícia Federal que, "se corrompidos, poderiam atuar como mercenários". Um dos participantes da conversa é o investigador Frank Holder, a quem Dantas diz ter conhecido apenas superficialmente. Outro é o esquisitão Mangabeira Unger, o guru de aluguel contratado por Dantas para assessorá-lo. Na ocasião, a Kroll já era investigada no Brasil pela PF. A transcrição da conversa, obtida por VEJA nos Estados Unidos, ainda está em sigilo. Foi entregue pela própria Kroll à Justiça americana, numa ação em que a nova direção da Brasil Telecom exige, da Kroll, cópias do trabalho de espionagem feito na época em que Dantas controlava a empresa.

Notícia é com ele

Roberto Setton

Aith: um dos mais destacados jornalistas do país

O editor executivo Marcio Aith, de 38 anos, é um dos mais destacados jornalistas do país. Formado em direito pela USP, na Faculdade do Largo São Francisco, ele iniciou sua carreira na imprensa em 1990, na Gazeta Mercantil. Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Tóquio e Washington, ele estava à frente da editoria de economia do jornal em 2004, quando revelou que a empresa de investigações Kroll fora contratada pelo banqueiro Daniel Dantas para espionar adversários comerciais e integrantes do governo. Em VEJA, Aith vem desempenhando um papel fundamental na apuração dos escândalos do governo Lula. Foi ele quem desvendou as ligações perigosas do ministro Antonio Palocci com a turma de Ribeirão Preto e descobriu uma rede de sete contas secretas no exterior do publicitário Duda Mendonça, marqueteiro do PT. Agora, o nome de Aith volta a estar em evidência por causa da apuração exemplar que trouxe à tona o dossiê de Daniel Dantas contra autoridades brasileiras. De certa forma, trata-se de uma extensão das reportagens que ele fez sobre a Kroll na Folha de S.Paulo. Aith não larga o osso

Sobre a reação dos policiais em São Paulo (newsletter de César Maia, 19/05/06)

Arquivado em: Sociedade — riomemo @ 2:18 am

No início do governo Garotinho -1999- o secretário de segurança ad hoc -Luiz Eduardo Soares- motivado pelo que viu em Los Angeles, e lastreado por outros policiólogos com doutorado- imaginou que era possível estabilizar as bocas de fumo. Ele propunha -na prática- um cessar fogo e baixar a repressão, sempre que não houvesse disputa a bala, destas bocas de fumo. Olhava para a contravenção no Rio, onde este equilíbrio foi possível.

Este "adeus às armas" foi de enorme ingenuidade. O resultado foi a ampliação da mobilidade dos traficantes no asfalto, a multiplicação dos "bondes", a abertura do raio das bocas de fumo, chegando ao asfalto, a sofisticação do droga-delivery nos bairros da zona sul,(as filas nas bocas de fumo escassearam), etc…

Esta mobilidade dos narcovarejistas teve como desdobramento a certeza que mais medo do que eles tinham da policia, a policia tinha deles. E daí para frente começou o assassinato de policiais -por serem policiais apenas- fardados ou a paisana- no cotidiano. Esta contabilidade vai mostrar um número muito maior que os 52 policiais já mortos em SP.

Os assassinatos concentrados -de policiais em SP- mostram que os traficantes perderam o medo da polícia. Este é o fato grave e novo, dada a referência de energia que tem a PM de SP. O que ocorreu e ocorre no Rio,( e a polícia de SP sabe bem) vai levar inescapavelmente, a PM de SP -a dar continuidade as ações de repressão sem limites contra os delinqüentes. Isso não vai parar pois a PM-SP sabe que precisa inverter a equação e fazer os bandidos correrem da polícia e temerem a polícia.

Para a PM-SP andar com a identidade oculta dentro da meia ou ter uma identidade diferente, é algo que não admitem. Isso foi dito ontem a este ex-blog, por um coronel e um capitão da PM-SP : "- Não adianta o comando pedir que pare. Vai continuar até que cada policial tenha a certeza que pode andar fardado e que não precisa esconder sua identidade. Aqui -disseram- bandido vai ter que correr da policia, vai ter que voltar a ter medo da policia, como tinha da Rota".

Bem,…será fácil acompanhar. As estatísticas de mortes de delinqüentes e de "corpos encontrados", poderão ser ordenadas numa série de cinco anos e acompanhadas daqui para frente.

Maio 19, 2006

The mob takes on the state (The Economist, 18/05/2006)

Arquivado em: Uncategorized — riomemo @ 6:19 pm

A prison gang shows its deadly power and flatfoots the

politicians

RIO DE JANEIRO is more beautiful, but residents of São Paulo boast that their city is safer. At least they did until May 12th, when a wave of violence orchestrated from within the prison system struck Brazil's biggest city and several neighbouring towns. In five days of mayhem and retribution some 150 people, a quarter of them policemen, were killed; 82 buses were torched and 17 bank branches attacked. Rebellions erupted at 74 of the 140 prisons in São Paulo state. Schools, shopping centres and offices shut down; transport froze. For several days, paulistanos could not even claim that their city was safer than Baghdad.

It was a show of force by the leaders of the state's main criminal gang, the Primeiro Comando da Capital. Directing the violence by mobile phone from their prison cells, they cast sudden doubt on whether São Paulo, the engine of Brazil's economy, is ruled by laws or by the mob. This is sure to be an issue in October's presidential election, which pits the incumbent, Luiz Inácio Lula da Silva, against Geraldo Alckmin. As governor of São Paulo until March, it is Mr Alckmin who has carried the chief political responsibility for its security. 

In Rio, it is widely known that three gangs battle each other and the police for control of the slums and the drug trade. São Paulo's drug trade has been more fragmented, and its Primeiro Comando a more shadowy presence. But contrary to some claims, the Comando has gathered strength. It has taken control of drug dealing and infiltrated youth detention centres. It seems to be colonising the criminal underworld, replacing individual initiative with organised enterprise, says Sérgio Adorno of São Paulo's Nucleus for the Study of Violence. That generally requires the connivance of public authorities.

Tulio Kahn, of São Paulo's public-security secretariat, says the Comando's fluid structure is more like al-Qaeda's than that of a tightly-run mafia. Its habitat remains the prisons. Its top boss, Marcola, who began his career, aged nine, as a pickpocket, has been in jail since 1999. His followers call him “Playboy” because of his fondness for designer clothing.

In 2001 the Comando staged a multi-prison rebellion and in 2003 it murdered an unpopular judge. But nothing foreshadowed this week's reign of terror. It proved that the Comando could strike at will, like a well-drilled army, and bring São Paulo almost to a halt. The shock was all the greater because violent crime has been declining. Between 1999 and 2005 the murder rate in São Paulo state dropped from 35 per 100,000 people to 18.

The offensive seems to have been provoked by the transfer of 765 of the Comando's adherents to a more remote jail. An earlier demand was for 60 television sets to watch next month's soccer World Cup. Mr Kahn argues that the Comando may have reacted to a recent crackdown, which included the creation of an inter-agency group to take on the gang.

But the Comando's murderous tantrum also points to something amiss in the way Brazil punishes criminals. The approach is at once unduly harsh and absurdly lenient. Prisoners may be denied television but can use their mobile phones to extort money.

The jails have become more crowded since 1990, when a federal law mandated prison sentences for selling drugs, no matter how small the quantity. São Paulo embraced this with gusto. Its prison population has more than doubled since 1994. But prison building lagged—the system has 35% more inmates than places. Some of the hastily trained guards became prisoners' accomplices. Inmates are supposed to work, study and receive decent healthcare—but many do not. “Prisons are becoming centres of criminality,” says Sérgio Mazina of IBCCRIM, a research institute.

The state government has now brought calm, but is accused of doing so with the same mixture of indulgence and harshness that caused the trouble. It denies reports that it made a deal with Marcola, yielding on the televisions and other privileges. A police counter-offensive has so far killed 93 “aggressors”—hardly an advertisement for the rule of law.

The debate provoked by the Comando's outrages pits popular demands for toughness against pleas for a more nuanced approach to criminals. More sensible proposals include transferring gang leaders to jails out of range of telephone transmission towers. State officials say that the declining murder rate (until this week) shows that incarceration is working. Cláudio Lembo, São Paulo's interim governor, wants to record conversations between prisoners and lawyers, who often pass on messages. The bar association rejects this as illegal. Galvanised by the crisis, Brazil's Congress is considering the creation of an intelligence service to fight corruption in the jails, which might be useful, and the introduction of solitary confinement for up to two years, which might not be.

It would be better to spring-clean the prisons. “A third or fewer prisoners really have to be there,” says Julita Lemgruber, a sociologist at the Universidade Candido Mendes in Rio de Janeiro. If the rest were punished in less drastic ways, they would be removed from the influence of the worst criminals. That would require new laws and more discriminating judges. To fight organised crime, police forces need to become more adept at investigation rather than mere repression.

Do not expect anything but tough talk from the presidential candidates. President Lula left it to an aide to suggest that Mr Alckmin had sown the seeds of chaos. Mr Alckmin slammed the federal government for cutting spending on public security. But at least now neither of them can dodge the subject of crime.

The Economist, 18 de maio de 2006

Arquivado em: Política — riomemo @ 6:14 pm

Latin America

The battle for Latin America's soul

May 18th 2006
From The Economist print edition

A fight between democrats and populists

“LATIN AMERICA doesn't matter…people don't give one damn about Latin America.” So said Richard Nixon, offering career advice to a young Donald Rumsfeld. With the bloody exception of the Central American wars of the 1980s, Nixon was right—until now. Suddenly Latin America has grabbed the world's attention. There are several reasons for this. But they come down to the notion that, after two decades in which country after country in the region seemed to embrace liberal democracy and market capitalism, something fundamental is changing.

A spectre has arisen, one of anti-American leftist nationalism. Ecuador this week became the latest Latin American country to kick out a foreign energy company—in its case, Occidental. But there are plenty of other signs that all is not well. The crime mobs created by foreign demand for cocaine continue to run amok. More than 100 people have died in a fight between one of these mafias and the state in São Paulo, the region's most modern metropolis (see article). The tide of migrants fleeing lack of opportunity in Latin America has become a bitter issue north of the border, especially with the Republican right. That has prompted George Bush to offer up to 6,000 National Guard troops to patrol the border (see article). His administration has also announced a (largely symbolic) ban on arms sales to Venezuela, which is run by the noisiest of the anti-Yanqui nationalists, Hugo Chávez, because, it is claimed, he is not co-operating in fighting terrorism. 

Yet to portray what is happening in the Americas as a battle between the United States and its Latin neighbours is mistaken. Latin America does matter—but not quite, or not only, for the reasons commonly believed. The battle being waged is one within Latin America over its future. It is between liberal democrats—of left and right—and authoritarian populists. Latin America's efforts to make democracy work, and to use it to make searingly unequal societies fairer and more prosperous, have implications across the developing world.

Those efforts suffered a severe blow in 1998-2002, when the region suffered financial turmoil and economic stagnation. Rightly or wrongly, voters blamed the slowdown on the free-market reforms known as the Washington consensus. As happens in democracies, they started to vote for the opposition—which tended to be on the left. Yet in Latin America, as this newspaper has often noted, the differences among the left-wing governments are more important than the similarities.

Broadly speaking, one camp is made up of moderate social democrats, of the sort in office in Chile, Uruguay and Brazil. The other camp is the radical populists, led by Mr Chávez, who appears to have gained a disciple in Evo Morales, Bolivia's new president. The populists shout louder, and claim that they are helping the poor through state control of oil and gas. Neither Mr Chávez nor Mr Morales is from the “white” elites who, in caricature at least, have long ruled in the region. Both direct volleys of abuse at Mr Bush. For all these reasons, the populists have captured the sympathy of ignorant paternalists abroad, such as London's mayor, Ken Livingstone, who this week welcomed Mr Chávez as “the best news out of Latin America in many years”.

The facts speak otherwise. Yes, after seven years in power and a massive oil windfall, Mr Chávez has finally created some health and education programmes for the urban poor. At last, poverty is falling (though it is still around 40%) in Venezuela—but it would be extraordinary if it were not, given the oil price. Yes, Mr Chávez has twice been elected and remains popular. But he is running down his country's wealth. Having dismantled all checks, balances and independent institutions, his regime rests on his personal control of the state oil company, the armed forces and armed militias.

Look around the rest of Latin America, and there is plenty of better news. In the current spate of elections, the populists are not carrying all before them. That is partly because the region's economies are now doing well again (see article), but it is also because some democrats seem to have learnt a salutary lesson. This is that governments neglect education, health and anti-poverty programmes at their peril.

Governments in Chile, Colombia, Mexico and Brazil are starting to achieve sustained reductions in poverty—and even in inequality—partly by more effective social policies. The difference will become even clearer when commodity prices fall and the economic cycle turns. Chile will then be able to maintain its social programmes by spending what it has saved from its copper windfall. By contrast, Venezuela's future may resemble not Cuba, as some of Mr Chávez's opponents fear, but Nigeria—a failed petro-state.

In place of drugs and migrants

It has become commonplace to berate Mr Bush for “losing” Latin America. But that is to overstate the influence of the United States in South America and Mexico (though not in the smaller countries of the Caribbean basin). Relations between the two halves of the Americas are not as good as a decade ago, yet the bigger change is the disarray within Latin America itself, largely provoked by Mr Chávez and his allies (who include Fidel Castro, Cuba's communist gerontocrat).

That said, the Bush administration could do more to help. Mr Bush's gesture towards tightening border security is a blow to America's friends in Mexico. If it is the price for approving the Senate's version of immigration reform, which includes routes to citizenship for illegals and expands legal migration, so be it. But it would help Latin America greatly if the United States coupled its trade deals with a more generous partnership for development, including targeted help with infrastructure—and if it accepted that its “war on drugs” has failed.

Meanwhile, democrats everywhere—including in Europe and in Latin America itself—need to make it clear on which side of the battle they stand. They should not welcome Mr Chávez in their midst unless the presidential election in Venezuela in December is demonstrably free and fair. Restoring democracy in Latin America cost too much blood for the achievement to be lightly thrown away.

« Posts mais novos

Blog no WordPress.com.