Leitura Silenciosa

junho 4, 2006

O ano em que desistimos (FSP, 04/06/2006)

Filed under: Política — riomemo @ 10:39 pm

O que beira as raias do chocante é que a sociedade brasileira tenha aquiescido e aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de escândalo

GUSTAVO IOSCHPE
ESPECIAL PARA A FOLHA

O MAIS surpreendente destes doze meses em que começamos a chamar parlamentares de "mensaleiros" não é que uma fatia aparentemente expressiva de nossos deputados recebesse uma mesada para votar com o governo. Nem que os deputados achassem que podiam se inocentar desse crime através da confissão de outro (caixa dois). Nem que eles efetivamente tenham sido inocentados. Nem que um deles tenha conjurado para sua absolvição uma trama certamente demasiado rocambolesca para ser aceita no mais mexicano dos folhetins: a esposa foi ao banco pagar a conta da TV a cabo e saiu de lá com 50 mil reais. Nem que o escárnio tenha chegado a tal ponto que uma congressista tenha se sentido suficientemente à vontade no ambiente prostibular que se tornou o belo prédio de Niemeyer para desfilar seus desajeitados passes do funk da sem-vergonhice. Nem que recursos de empresas estatais fossem uma fonte do numerário usado para alimentar os mensaleiros, configurando um novo e tenebroso nível de estelionato no país, em que os recursos do Estado são utilizados para irrigar um partido a chegar e manter-se no poder, solapando a isonomia que é a essência do regime democrático. Nem que o marqueteiro do presidente tenha reconhecido, aos prantos, que recebeu dinheiro no exterior -uma única vez!- para realizar a campanha política de petistas. Nem que depois tenhamos descoberto que aquela não havia sido a única. Nem que, do "núcleo duro" do governo, um membro tenha sido cassado e indiciado por suspeitas de chefiar a máfia, outro tenha sido forçado a pedir demissão e tenha também sido indiciado por abiscoitar propinas em seus tempos de prefeito e o terceiro tenha abandonado seu ministério por negócios escusos com um familiar. Nem que um ministro da Fazenda tenha entrado em conluio com o presidente do segundo maior banco público do país para violar o direito à privacidade de um caseiro e divulgar seu sigilo bancário à imprensa. Nem que o procurador-geral da República tenha oferecido denúncia contra 40 das mais altas cabeças da República por formação de quadrilha e tenha chamado o partido ora no poder de "sofisticada organização criminosa". Nem que dinheiro público tenha aparecido numa cueca em um detector de metais de um aeroporto. Nem mesmo que o nosso presidente -aquele que nomeou e chefiou toda a gangue e que tem ao seu dispor todo o aparato de informação e inteligência das forças de investigação civis e militares- consiga se manter no cargo única e exclusivamente por alegar desconhecimento de tudo e todos que estavam à sua volta e que foi traído. (Em outros países, desconhecimento, autismo e ingenuidade desqualificam a pessoa para o exercício da Presidência. No Brasil, tornam-na favorita para a reeleição.)
Não. Tudo isso é grotesco, é revoltante, é pusilânime, é roto e vergonhoso. Mas não chega a ser surpreendente porque, infelizmente, a única coisa que nos surpreende em nossos homens públicos é a correção, a ética, a honestidade.
O que é verdadeiramente surpreendente, o que beira as raias do chocante é que, envolta e soterrada por essa avalanche de esterco, enganada e vilipendiada por seus representantes eleitos e sabendo que os contos da carochinha contados por eles em sua defesa não passavam de empulhação da grossa, a sociedade brasileira tenha aquiescido e aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de escândalo. Que tenha relevado aquilo que povos sadios teriam visto como acinte. Que num país de 180 milhões de almas penadas não tenha havido um partido, um sindicato, um grêmio estudantil, uma ONG ou uma roda de bocha sequer com a disposição de ir às ruas, de convocar uma passeata, de jogar um mísero tomate ou dar um grito solitário contra essa patifaria que nos confisca a nação.
Com o silêncio, tornamo-nos cúmplices. Por que essa inação? Será que as duas décadas de miasma econômico nos deixaram suscetíveis a acreditar que um crescimento econômico que só superou o haitiano é realmente uma boa performance? Nos vendemos por tão pouco? Ou será que a fadiga com o sistema político chegou ao ponto da total indiferença? Será que depois de apostarmos na redemocratização, no presidente-carateca, no presidente-sociólogo e no presidente-operário e vermos nossas expectativas cada vez mais frustradas finalmente abandonamos o barco? Não sei. O certo é que esses últimos doze meses, esses sombrios e desalentadores doze meses marcam a nossa desistência. Lavamos as mãos.
Daqui pra frente nossa democracia será como aqueles casamentos em que os cônjuges mal disfarçam sua infidelidade. Permanecem casados por um misto de conveniência e obrigação, mas ambos sabem que nenhuma das partes pode ser confiada, nem tampouco que cabe qualquer indignação frente aos abusos e omissões do outro. Os eleitos nos enganam e os eleitores tentamos burlar leis, sonegar taxas e tratar a urna como penico, e ficamos acertados que ninguém denunciará as impropriedades do outro.
Estamos num grande e árido deserto, sem ninguém que possa nos conduzir pelo mar vermelho-lama que cada vez ocupa mais espaços. Talvez um dia nosso povo chegue à Terra Prometida, mas não será nesta geração.


GUSTAVO IOSCHPE , 29, mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale (Estados Unidos), é autor de "A Ignorância Custa um Mundo – O Valor da Educação no Desenvolvimento do Brasil" (Editora Francis, 2004) e "Vestibular Não é o Bicho" (Editora Artes e Ofícios, 1996). Foi colaborador da Folha nos cadernos Fovest (1996-1997) e Folhateen (1997-2000).

9 Comentários »

  1. Perfeito! E muito triste, porque do outro lado do mar vermelho-lama,
    haverá um deserto ainda maior de homens e de esperanças que demandará
    muito sangue e muitas lágrimas para ser atravessado.

    Comentário por Saramar — junho 9, 2006 @ 6:51 am

  2. Bela reflexão, mas me pergunto: o que faremos com nosso voto? Lula, Alckmin… Por favor!

    Comentário por Alcio Mota — junho 9, 2006 @ 6:45 pm

  3. Quem leu e refletiu, certamente não medirá esforços para mudar esse cenário. Vote contra o PT!

    Comentário por José Martins de Miranda Neto — junho 10, 2006 @ 8:48 pm

  4. Caro Gustavo

    Li o seu artigo “O ano em que desistimos”. Expressa bem o que eu penso. Estou estupefato com a tolerância deste povo ignorante. Onde estão os estudantes, os sindicatos, os professores, todos aqueles que pediam ética ???? Que horror este nosso país. Agora mais 4 anos para aguentar êste Lulla que convenceu o país que a mentira é legal. É o fim da picada.

    Mas não podemos desistir

    A nossa luta a favor da moraridade e ética continua, não devemos deixar de nos indignar.

    Comentário por Lauro Altmann — agosto 31, 2006 @ 12:35 pm

  5. Fomos às ruas sim, mas a midia calou, ou quase.
    Então as pessoas desistem.
    Mas conheça o site http://foralula.lpchat.com
    Em tempos virtuais, esse site vale por uma passeata. Ou quase!

    Comentário por cathy — setembro 3, 2006 @ 6:02 pm

  6. Usando uma expressão gauchesca, o “povo se acadelou”. Infelizmente, com quem falo, todos dizem ter NOJO de política, mas o que é mais chocante, grande parte, está disposta a
    trocar seu voto, por alguma vantagem pessoal. O Congresso, é a “cara” dos brasileiros, maioria ignorante, sofrida e desiludida…

    Comentário por Miguel — setembro 4, 2006 @ 9:51 pm

  7. FORA LULA

    O nosso país precisa muito de todos nós !
    O momento é agora !
    Vamos dar uma lição de civilidade ao “ PT “ e lutar, cada um de nós, para conquistar 1 voto que seja, e vamos eleger GERALDO ALCKMIN nosso presidente.
    Vamos romper as barreiras de nossas conversas entre quatro paredes e soltar a nossa voz, mostrar ao Brasil que existimos e que lutamos por nossos ideais de justiça, ética e dignidade.
    Vamos colocar a bandeira brasileira em nossas casas e locais de trabalho. Vamos perder a timidez e colocar adesivos em nossos carros e ter coragem de mostrar que também somos brasileiros, que somos honestos, dignos, pais de família, filhos, estudantes, trabalhadores e que temos muito o que fazer pelo Brasil.
    Vamos varrer definitivamente da nossa história o lixo do “ Lula “ e vamos recomeçar, acreditando, acima de qualquer coisa, que existem políticos e governantes que pensam como nós, e que lutarão por um Brasil melhor, com seriedade, empenho e competência.
    Levamos as eleições para o 2º turno para deixar claro que não engolimos os mensaleiros, os dólares na cueca, os sanguessugas e, muito menos, o episódio do dossiê.
    Parte do 1º escalão do governo Lula está totalmente comprometida em escândalos, alguns até com prisão decretada. Não vamos esquecer seus nomes: José Dirceu / Palocci / Gushiken / Delúbio Soares / Ricardo Berzoini / Freud / Humberto Costa / Hamilton Lacerda / Jorge Lorenzetti e o grande chefe da gangue – Lula.
    A mentira, o cinismo, a ocultação de provas e a arrogância foi vencida pela opinião pública através do voto.
    Vamos moralizar a democracia. O 2º turno nos fez reviver, nos fez sentir mais respeitados.Não temos mais medo de mostrar a nossa cara.

    Vamos lutar para eleger GERALDO ALCKMIN !!!!

    Vamos às ruas gritar por um Brasil Digno !!!!

    Vamos votar 45 .

    Organize-se : Sábado,dia 21 de outubro,às 11:00hs, ao lado da Assembléia Legislativa, em frente ao lago do Ibirapuera,vamos fazer uma grande manifestação.
    Não se esqueçam: todos de camiseta branca escrito FORA LULA.

    A vitória depende do esforço de cada um de nós !

    FORA LULA

    Comentário por Gisele — outubro 9, 2006 @ 8:53 pm

  8. Onde estão os “Guardiões da Democracia” os militares, que por um milionésimo do que acontece hoje, tomaram o poder e afastaram os corruptos e marxistas em 64?

    Comentário por Fernando Pisarro — outubro 14, 2006 @ 6:16 am

  9. É um horror saber que o homem tem a capacidade de destruir a riqueza de uma nação por inveja de outros homens ou com a inveja da própria nação? tem que haver punição e cadeia para estes ordinários que acabaram com a produção do cacau na Bahia , com pragas. Informar quem foi o primeiro Berbert Barão do Cacau em Ilhéus (imigrante alemão0 que dia chego na Bahia, qdo nasceu, veio de onde e qtos irmãos eram. Porque o meu tataravô é Adão Berbert,ficou em Friburgo. O que ficou em Ilhéus é Berbert tbém. Obrigado Darcy

    Comentário por Darcy Berbert de Andrade — janeiro 26, 2007 @ 4:34 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: